domingo, 1 de setembro de 2013

O Lacre

Resolvi escrever esse post porque, mais uma vez, chegou a mim a "lenda" dos lacres de latinhas de alumínio.

Esse site chama Lacre Amigo. Ao pesquisar mais um pouco, descobri que existe também uma campanha semelhante em São Paulo chamada Lacre Solidário. Coincidência ou não, ambos os projetos são iniciativas de empresas que cuidam de rodovias que foram privatizadas. (Litoral Sul e CCR Via Oeste, respectivamente)

Eu já havia visto correntes por email, postagens em redes sociais e até blogs falando do assunto e achava bastante estranho juntar apenas o lacre já que aparentemente o material é o mesmo e a reciclagem sendo por peso, não faria sentido guardar o lacre e jogar a latinha fora! Na primeira vez que falavam disso, tinha um discurso do lacre ser mais valioso que a latinha.

Em 2011, o Guaraná Antártica fez uma campanha digital aproveitando a onda, onde tentava acabar com esse comportamento, sem julgar se era certo ou errado, pedindo para as pessoas apoiarem o vídeo e isso renderia cadeiras de roda para instituições. Veja A Campanha e também A Entrega.

A questão já esteve até na prova do Enem em 2012 onde o aluno teria que saber sobre os potenciais de redução do magnésio que é misturado ao alumínio do lacre, que reduziria a oxidação do material durante o processo de reciclagem.

A ideia desse post não é fazer critica as iniciativas, porque como pode ser visto, de uma forma ou de outra, as campanhas conseguem ter o resultado a que se propõe. Até o momento esse site do Lacre Amigo apresenta a entrega de 13 cadeiras em quase 1 ano de campanha e o projeto semelhante do Lacre Solidário diz ter entregue 10 cadeiras em 9 meses. A campanha da Antártica transformou cada 10 mil "cliques" em uma cadeira e assim conseguiu doar 50 cadeiras em um mês, sem precisar dos lacres.

A ideia é tentar entender porque afinal se coloca tempo e energia nesse tipo de ação que parece não ter sentido. Eu coletei algumas informações que podem ser úteis para ajudar nessa análise e a única informação que não consegui encontrar é sobre o destino dos lacres.

No site da ABAL (Associação Brasileira do Alumínio) tem uma página que informa que o nível de reciclagem das latinhas no Brasil já é de 98% e tem um preço médio de R$3,00 por Kg. A ABAL informa nessa página sobre o fato de não haver reciclagem apenas do lacre e somente da lata inteira.

Outra pesquisa levou a uma empresa chamada Frato Ferramentas que troca os lacres por cadeiras há mais tempo, na proporção de 80Kg para cada cadeira, o que daria, segundo ela, cerca de 140 garrafas. No Lacre Amigo diz que trocam 80 garrafas por 1 cadeira.

Uma estatística apresentada no site sobre processo de reciclagem informa que o Brasil tem um consumo aproximado de 51 latinhas por habitante. O Wikipedia diz que é preciso 74 latas para obter 1 Kg de alumínio.

O site da Ipiranga Reciclagem, que oferece o serviço de reciclagem de metais, explica que não compensa para as empresas reciclarem apenas o lacre. As empresas anexam o lacre na lata com um sistema que a principio deveria evitar que ele se soltasse da lata, porque solto, dificultaria o processo de peneiragem das latas. Nesse link tem um vídeo mostrando como é feita a reciclagem e seria realmente impossível colocar só os lacres nesse processo.

Através de uma pesquisa em sites de comparação de preço é possível achar cadeira de rodas a preços que variam de 600 a 6 mil reais. Por isso, se levarmos em consideração os valores, 80 Kg de lacres a R$ 3,00 o kilo, teríamos R$ 240,00 se tivesse uma empresa de reciclagem disposta a comprar os lacres, que parece pouco para comprar uma cadeira de rodas, mesmo levando em consideração que a empresa entrasse com outros R$ 240,00 como doação.

Existe também a chance de se vender os lacres para fins de artesanato e encontrei preços que variam de R$ 10,00 a R$ 30,00 por garrafa. Com esse valor parece razoável obter um cadeira de rodas básica, mas não consegui encontrar estatísticas sobre a demanda para esse tipo de material, talvez por isso o preço seja alto.

Se fizermos um ensaio com os números podemos chegar a conclusão que seria bem mais inteligente doar as latas inteiras para arrecadação de dinheiro e posterior compra das cadeiras. O que parece é que coletar apenas o lacre, ao mesmo tempo que dá a sensação para as pessoas que estão ajudando a causa sem precisar juntar um volume grande de latas, traz um benefício social-econômico grande para a empresa que toca o projeto.

Fica agora a critério de cada um tirar as próprias conclusões.

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